Uma balbúrdia de direção

E se um filme pudesse ser feito em colaboração entre Stephen King, Alfred Hitchock, Oliver Stone, Woody Allen, Tim Burton, Steven Spielberg, Cameron Crowe, Martin Scorsese, Stanley Kubrick, David Lynch e M. Night Shayamalan? Talvez, talvez… ele pudesse ser algo parecido com isso:

É uma noite de 6a feira e nós cinco, amigos de infância, estávamos saindo de uma festa em Nova York. A conversa girava em torno dos tempos em que éramos garotos em uma pequena escola no Maine. As escapadas para o lago, as corridas de bike, a banda, as garotas e o senhor Levinsky. O velho tinha um segredo naquela casa assustadora. A princípio parecia apenas solitário e nada mais. Até o dia em que o cachorro de um dos rapazes morreu atropelado. (aqui entra uma animação em stop-motion para contar como foi a morte do cachorro). Houve um funeral e um enterro. Eu mesmo me encarreguei da cova do pobre animal. Na manhã seguinte, porém, o buraco estava aberto e o cão não estava mais ali. A investigação deu início e o que descobrimos foi horripilante: todas as provas levavam para a casa do senhor Levinsky. Mas por que aquele homem queria um cachorro morto?


Daquele dia em diante revezávamos para observar os movimentos que iam e vinham daquela casa. Eram tempos de guerra e as pessoas andavam desconfiadas. Nada era o que parecia. Meu irmão mais velho era o exemplo sincero e cruel do que os campos do Vietnã faziam aos jovens. As vezes ele saia de casa gritando, se abaixava nos arbustos e fingia atirar contra a casa do senhor Levinsky. Ele dizia que o inimigo nos vigiava. Seria uma coincidência sinistra ou havia mesmo algo acontecendo naquela casa? Contei aos rapazes e decidimos que entraríamos naquele lugar.
O telefone tocou. Meu casamento estava em crise e eu sabia quem era. Há um ano, minha esposa e eu estávamos em Roma. A cidade, que tornou-se meu lugar favorito no mundo, também foi o início de um momento estranho na minha vida. Certa noite, voltávamos para casa e fomos abordados por uma espécie de gangue de palhaços que nos convidaram a um circo de rua. Nos entreolhamos, rimos e aceitamos. Quando chegamos nos vimos em um lugar em que, ao invés de mágicas e malabarismos, tinha o palco central ocupado por casais que falavam sobre suas vidas íntimas. A cada resposta em que havia uma discussão ou discordância, um balde de água caia na cabeça de um deles. Depois, vinha uma torta na cara. No começo achávamos graça… até chegar a nossa vez. De lá para cá nossa relação se tornou uma bagunça. A cada vez que brigávamos e eu falava “olha a torta”, ela me atacava alguma coisa irritada. Numa dessas confusões saí de casa e me encontrei com os rapazes. Agora me lembro que, assim como hoje, falamos também sobre o senhor Levinsky. Lembramos o caso “luz verde”, quando, certa madrugada em que roubávamos algumas amoras no quintal do meu velho e esquisito vizinho, observamos no céu, ao longe, uma luz verde… eliptica e veloz… que caiu bem próxima ao lago. Mas algo estava estranho. Minha cabeça girava e, antes que pudessemos decidir se iríamos ou não ao local da queda, adormeci. E não vi mais os caras. Lembro que acordei ainda no quintal do sr. Levinsky e do seu quarto vinha uma luz forte, brilhante, intensa e verde. Na conversa dessa noite descobri que nenhum dos rapazes tinha visto o que eu vi. Disseram que também adormeceram naquela noite, mas, diferente de mim, acordaram em suas camas. Nunca soubemos o que aconteceu ali, mas era mais um motivo para irmos à casa misteriosa.
Precisávamos de um plano. E o iniciamos. (em meio a papéis, gráficos, risadas, teorias conspiratórias… sobe trilha sonora “Light Years”, do Pearl Jam). Da janela alguém observava e parecia olhar para nós vez ou outra. A ideia era fingirmos um acidente de bicicleta e pedirmos ajuda. Neste momento, um cadilac pára nas proximidades. Três caras vestidos em um terno fino e alinhado tocam a campainha do senhor Levinsky. Garanto que vi um mexer em algo que parecia uma arma. A porta não se abre. Um deles nos vê e parte em nossa direção. “Ei garoto”, diz com sotaque italiano. “Vocês conhecem o velho?”. Todos nós indicamos uma negativa, mas ele insistiu. “Ele tem algo para gente. Estamos juntos há muito tempo. Assuntos pendentes”. Continuamos calados. “Se o virem por aí, digam que Joe Maletti quer vê-lo, certo?”. Sim, respondemos. Nos deram uma nota de 50 pratas e se foram. O cara tinha uma arma, meu Deus. Ficamos em dúvida sobre seguir em frente. Na verdade, desistimos rapidamente. Juramos, então, que se algo acontecesse… voltaríamos.
O celular tocou novamente naquela 6a feira. Acabávamos de nos despedir. Era minha mãe. Meu irmão havia desaparecido há uma semana e ela só me falava disso agora. Precisava da minha ajuda. Voltei naquela mesma noite para o Maine. Ao chegar quis entender com minha mãe sobre o acontecido, os últimos passos do meu irmão e o que ele havia falado. Fiquei pálido. Disse ela que ele falou algo sobre uma luz verde antes de sair. Eram 0h30 quando liguei para os caras e 14h quando todos já estavam na minha antiga residência. Depois de tudo dito, permaneceu um silêncio incomodo. Não havia outra opção a não ser cumprir a nossa promessa.
Nem sabíamos se o senhor Levinsky estava vivo ainda. Minha mãe também não sabia. Nada acontecia naquela casa há anos. Atravessamos a rua e tocamos a campainha. Nada. Batemos na porta e nenhuma ação. Forçamos um pouco a porta e ela se abriu. Tudo parecia abandonado, mas os móveis estavam intactos. Procuramos em todos os cômodos inferiores como se adíassemos o encontro com o quarto de onde vinha a tal luz. Um tanto sem coragem ainda, subimos os cinco. Finalmente estávamos de frente com o local de nossos medos primários, a fonte de tanto mistério. Giramos a maçaneta e lá estava meu irmão. Sentado, quieto, comendo as amoras que outrora existiam no quintal. Não respondia. Parecia não estar ali. O chamei, sacudi, dei-lhe um tapa no rosto… e ele, finalmente, sorriu e ele apontou o armário. De dentro dele, pelas frestas, vinha a luz verde, que iluminava a escuridão do quarto. Caminhei até a porta do móvel e parei. Os rapazes apenas olhavam e um deles amparava meu irmão, que não desgrudava os olhos de mim. Contei até três mentalmente e abri. Era uma escada que levava a uma câmara no sótão. Estavam lá os mafiosos, minha esposa, o cachorro e o senhor Levinsky vestido em uma fantasia de alienígena. Todos observavam um pote no chão, de onde saia a luz verde. Cada um jogava um pouco de amora e depois retirava para comê-las. Fui até o círculo e tentei retirar minha esposa daquele momento seita bizarra. Não era ela. Era um boneco. Assim como todos os outros ali. Os rapazes subiram e me olharam. O mais velho, John, sorriu e contou que a cidade como conhecíamos já não existia. Nem cidade e nem nada. Na verdade, as memórias eram falsas. A não ser nossos pais, familiares e casa. Não tinha havido mais nada. “E onde estamos, quem é você?”, quis saber. “Sou o John mesmo. Mas, sinto muito, estamos no Vietnã”, ele respondeu. “Não existe casa. Isso é um galpão de testes. Eles tem nos dado drogas disfarçadas de amoras. Nos dão para que pudessemos superar nossos medos. Cada um deles… e tudo tem início nos nossos medos de infância. Esse era o teste, soldados sem medo de combate”, falou John. Não restava nada. Não havia esposa (talvez uma enfermeira), não havia cachorro (talvez o início dos experimentos), máfia (talvez homens do governo)… droga nenhuma. “Ah, sim. Mas há uma coisa mais que existe”, disse John. Neste momento, entra um homem, vestido de médico, com a placa no jaleco “Levinsky, Paul”. Sorri e aponta uma luz verde no meu rosto.

Moral da história:

Não é porque você tem uma seleção dos melhores que vai conseguir que algo fique realmente bom. A visão única, exclusiva e particular, tanto no roteiro quanto na direção, é essencial. Fique atento quando vendem um filme com um grande nome na produção, por exemplo. Isso pode não significar absolutamente nada. O bom cinema não está só nos grandes nomes.

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