Filme Café Society é Bom?

“A vida é uma comédia. Uma comédia escrita por um roteirista sádico”.

Talvez essa frase não apenas consiga resumir com competência a lógica envolvida pela narrativa de Café Society, mas talvez abrace como um todo a obra do diretor Woody Allen. Dono de um estilo bem particular e específico, o diretor retorna em 2016 com um vigor estético atualizado, cheio de maneirismos atípicos à sua decupagem usual, mas sem perder os questionamentos morais e existenciais obrigatórios em sua escrita.

Jesse Eisenberg (Batman v Superman) é Bobby, uma reencarnação da persona criada por Woody Allen nos anos 60, através de sua própria interpretação exageradamente tímida e neurótica. Aliás, se Owen Wilson havia sido amplamente elogiado em Meia Noite em Paris pelo seu mimetismo em cima dos trejeitos usados na juventude do seu diretor, Eisenberg aqui traz um frescor interessante ao aliar o seu próprio timing cômico, fortemente baseado na velocidade de suas falas, para recriar o homem contemporâneo de Allen.

Mergulhado em um mundo pós-crise de 29, onde o glamour do Cinema e suas estrelas representavam um grande contraponto com a realidade desiludida do cotidiano “civil”, Bobby, filho caçula de uma família judia, muda-se de Nova York para Los Angeles com o objetivo de trabalhar na produtora do seu tio Phil (Steve Carrel, de Foxcatcher). O comparativo entre as duas capitais é ilustrado visualmente pela temperatura de suas cores, e se um dourado artificial banha as mansões californianas, vemos uma Nova York dessaturada, crua, sempre pendendo para um marrom que escurece os ambientes internos e familiares. Traçando esse comparativo desde o início do longa, a terra da oportunidade vai sendo revelada pela sua fragilidade e hipocrisia, e seu dourado “Technicolor” perde a conotação positiva sugerida anteriormente. Já Nova York, com seus conflitos humanos e a honestidade das ruas, se prova ainda mais cinematográfica do que a própria Mecca da Sétima Arte.

O triângulo amoroso traçado entre Bobby, Phil e sua secretária Vonnie (Kristen Stewart), estabelece um conflito desinteressante e pouco inventivo, sendo apimentado apenas por pequenas pistas e recompensas inseridas para amarrar sua trama de forma eficiente. A utilização despretensiosa de pequenos elementos, expostos em diálogos de maneira orgânica e pouco chamativa, faz com que sua reutilização como forma de amarrar ou iniciar certos conflitos torne-se uma grande amostra da capacidade narrativa de Woody Allen como roteirista. Mesmo na ausência de temas e soluções inovadoras, ou até mesmo relevantes para sua filmografia, é extremamente interessante perceber como o autor não perde suas ferramentas clássicas que estimulam uma progressão satisfatória em suas tramas.

Como em grande parte de sua carreira, a utilização de narração (dessa vez, em áudio gravado pelo próprio), Allen gasta um grande tempo de sua introdução na apresentação de seus personagens, garantindo uma exposição dupla e redundante: cada cena inicial de seus personagens trazem consigo suas características biográficas proferidas pelo narrador e exemplificadas por uma cena curta bastante expositiva. Se esse recurso funciona com diretores como Martin Scorsese e Quentin Tarantino, é pela justaposição irônica entre diálogo e ação, enquanto em Woody, principalmente em Café Society, vemos apenas um exercício do seu próprio estilo sendo posto em prática. Salvo aqui como exceção, a utilização irônica da violência do mafioso Ben (Corey Stoll, de Homem-Formiga), que não só se destaca pela própria interpretação do seu ator, mas ganha cores ao se utilizar do velho paradoxo entre a violência do homem da máfia e o seu apreço e cuidado pela noção de família.

Existe uma dificuldade de promover o envolvimento do público com os dramas e relacionamentos de seus personagens, algo que não só é um reflexo da incapacidade de Kristen Stewart de trazer vida e intenções diversificadas para sua Vonnie, constantemente entediada em sua própria máscara dramática engessada, evitando o olhar direto de seu colega de cena a todo o tempo, mas do próprio distanciamento proposto pela narrativa. Após uma grande expectativa para o início do relacionamento entre Bobby e Vonnie, o filme se engaja em uma montagem em forma de clipe, onde a narração resume rapidamente para o espectador os sentimentos do casal em meio de interações genéricas de romantismo entre os dois; solução superficial para uma questão cerne levantada pelo longa.

Com uma frágil liga entre suas subtramas, “Café Society” propõe uma comédia de costumes que remonta seu estilo como dramaturgo no Teatro, com suas peças rápidas e diálogos que provocam a troca de poder entre seus interlocutores o tempo todo. A aquisição de Vittorio Storaro como diretor de fotografia trouxe um colorido e uma diversificação em seus movimentos de câmera que se destacam em sua filmografia tão rígida e repetitiva em termos técnicos. Porém, como bem disse o diretor brasileiro Júlio Bressane em uma de suas entrevistas, se referindo ao paradoxo entre a ascensão técnica e a queda da qualidade narrativa dos produtos cinematográficos: “Não adianta vestir um escafandro feito de ouro para mergulhar em uma banheira”.

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