Filme Bruxa de Blair é Bom?

É tarefa impossível conseguir fazer qualquer continuação convincente para A Bruxa de Blair, aparentemente. O filme que originou a onda de cópias de baixo orçamento simulando o “found footage” (leia-se filmagens deixadas para trás após algo terrível acontecer a quem operava as câmeras) continua insuperável, e a nova tentativa de renovar e capitalizar em cima do pequeno filme que tornou-se, à época de seu lançamento, um fenômeno cultural e financeiro é mais um erro para a coleção.

Comecemos pela premissa ridícula: o irmão caçula de Heather Donahue (a documentarista responsável pelas filmagens achadas em 1999) crê que sua irmã ainda pode estar viva. Sim, você leu certo: um sujeito que parece não sofrer de nenhuma deficiência mental acredita que sua irmã ainda vive, sabe-se lá como, nos arredores da floresta em que desapareceu após 17 anos, e está convencido disso graças a um reflexo visto num espelho de uma filmagem que surge no You Tube.

Claro, essa é apenas a primeira das tentativas de atualizar a coisa toda independente de lógica: temos streaming, GPS, drones, câmeras acopladas em ouvidos de bateria eterna que filmam com uma qualidade impossível e registram sons com capacidade impecável até mesmo dentro de sapatos das pessoas ao redor. Tudo isso seria perdoável se o filme, ao menos, construísse algo digno com toda essa parafernália e tivesse qualquer personalidade própria. Não é o caso.

Apesar de algumas ideias acertadas como a confusão mental e temporal causada pelo fato de estarem perdidos ou até mesmo o loop que o filme cria para si mesmo com o tal vídeo exibido na sua abertura, temos aqui quase uma nova versão equivocada do longa original, mais interessado em replicar tensão do que construí-la de forma natural e com méritos próprios. Contando com recursos muito mais polpudos, Adam Wingard e cia. parecem saber o que estão fazendo, mas, na verdade, esquecem que apenas aumentar o volume não muda a música e ainda pode causar distorção. Mortes mais elaboradas parecem encobrir o fato de que, no original, não sabíamos o que acontecia com os envolvidos, e isso tinha muito mais impacto. O filme perde inúmeros pontos também na tentativa de criar sustos com patéticos e imbecis jump scares através de personagens quase literalmente pulando na frente da câmera ao menos uma dezena de vezes ao longo de sua curta duração, chegando ao ponto de tornar-se ridículo.

O filme falha até mesmo na própria tentativa de re-imaginar a proposta do Blair original, ao editá-lo com interferências digitais forçadas inseridas na pós-produção e blacks que só aumentam a artificialidade da coisa toda e o distancia de sua obra inspiradora; essa direta e sem cortes pausados para respirar ou criar divisões. A falta da bitola 16mm contrastada e totalmente horripilante também é sentida, mas isso é mais queixa pessoal do que defeito do filme.

A culpa disso recai inteiramente sobre Wingard – oriundo da geração responsável pela coletânea VHS e um de seus nomes mais fortes – sempre influenciado pelo filme de 1999, mas também repleto de vícios que fizeram seu caminho até Bruxa de Blair. Dono de uma carreira que vinha num crescendo admirável, esse que poderia ser um projeto de paixão erra em coisas básicas, desde o elenco de rostos semi-conhecidos (ainda que competente) até a reverência excessiva ao filme original, prejudicando qualquer surgimento de ideias que pudessem causar surpresas e errando também nas poucas novidades que traz. Ainda assim, é inegável o acerto de alguns dos minutos finais do filme, no qual a casa mal assombrada e dilapidada vista no filme primogênito ressurge de forma ainda mais opressiva.

É lamentável achar que algo como este Bruxa de Blair poderia fazer jus ao original apenas por atualizar-se tecnologicamente e seguir sua trilha quase passo a passo, previamente desnorteante e, agora, apenas previsível. Por mais respeito que tenha à fonte de inspiração – e isso é evidente ao analisarmos quem está por trás das câmeras – não há aqui qualquer vestígio do que tornou A Bruxa de Blair (o real de 1999) um clássico do gênero: o trunfo de, com muito pouco, conseguir construir tensão quase insuportável e terror psicológico genuíno. No lugar de um(a) vilã(o) opressor(a) deixado(a) apenas para a imaginação temos aqui um parasita de pé para os realizadores brincarem de gore e algo similar a um alien que faria mais sentido numa próxima continuação da série Cloverfield, comprovando que, às vezes, menos é muito mais.

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