Filme Inferno é Bom?

Com um leque enorme de filmes adaptados de livros e quadrinhos, é importante para a crítica de cinema nunca se perder em comparações fúteis entre a mesma história contada de formas diferentes. No caso de Inferno, terceiro filme adaptado da série literária de Dan Brown sobre as aventuras do simbologia Robert Langdon, a regra se mantém, e a leitura do livro serve apenas como um guia que desvela até certo ponto a lógica de um roteiro que se esforça em apresentar um meio termo dos dois pólos opostos em que se encontram seus longas antecessores.

Filme Inferno é Bom?

Se em O Código Da Vinci tanto público quanto crítica observaram uma falta de ritmo entre suas longas e maçantes cenas de exposição didática, Anjos e Demônios peca pela dificuldade de ser prazeroso ao meio de uma energia artificialmente agitada, onde a ação constante confere ao longa uma estrutura desastrosamente problemática. Já em Inferno, o diretor Ron Howard introduz sua nova trama com a aparente sensação de controle, dando o tempo necessário para que seus códigos e conflitos sejam estabelecidos em cima de um ritmo de montagem interessante para a franquia até então. Os flashes delirantes que perpassam pelo subjetivo de um Langdon hospitalizado, inseridos burocraticamente em seu primeiro ato, revelam uma tentativa de quebrar um paradigma estético assumido anteriormente na franquia.

Assim como visto em diretores como Christopher Nolan e David Fincher, Ron Howard se esforça em uma tentativa frustrada de conseguir aliar um didatismo narrativo com um toque transcendental nunca alcançado. Em “Uma Mente Brilhante” já era possível notar como sua montagem confusa e inserções gráficas luminosas (algo repetido em O Código Da Vinci) eram sintomas de uma falta de convicção para expor em tela algo substancialmente concreto. Em “Inferno”, não apenas Howard comprova sua falta de aptidão para deslumbrar o público com sua pretensão, mas o próprio roteiro de David Koepp (responsável pelo constrangedor Indiana Jones e a Caveira de Cristal) auxilia o diretor a se enforcar na própria corda.

Povoado de personagens de péssima caracterização e personalidade, o roteiro de Inferno é refém da própria obra literária da qual criou vida. O didatismo da narração de Dan Brown se converte em tela ao corpo de péssimos diálogos expositivos, onde as curiosidades artísticas e históricas que envolvem a cidade de Florença se tornam uma pedra no caminho da naturalidade de suas conversas. A noção de perigo proposta por uma introdução instigante se esvai na casualidade com que a narrativa trata o tema com o passar de sua minutagem, transformando uma situação limítrofe em um conflito pueril e perigosamente maniqueísta pela covardia do texto de não apostar nas nuances de suas questões éticas e sociais.

Com uma das trilhas mais criativas de Hans Zimmer em seus últimos trabalhos, investindo em tons metálicos oitentistas que alimentam a frágil estrutura de thriller proposta pela direção, Inferno fracassa amargamente em sua pretensão de criar um meio termo entre seus dois filmes antecessores. A falta de humanidade de seus personagens e a superficialidade de seu tom torna ainda mais constrangedora a tentativa de criar um interesse romântico totalmente dispensável para o progresso do arco do professor Langdon, se tornando uma mera ferramenta artificial para tentar dar tridimensionalidade à sua figura sisuda e pragmática. Longe de ser uma experiência infernal de se assistir, basta afirmar que seus longos e desnecessários 121 minutos podem transmitir uma sensação de purgatório, onde toda sua previsibilidade e desconexão com sua própria realidade apenas incentiva um ligeiro desejo para que tudo acabe logo de uma vez.