Filme Bruxa de Blair é Bom?

É tarefa impossível conseguir fazer qualquer continuação convincente para A Bruxa de Blair, aparentemente. O filme que originou a onda de cópias de baixo orçamento simulando o “found footage” (leia-se filmagens deixadas para trás após algo terrível acontecer a quem operava as câmeras) continua insuperável, e a nova tentativa de renovar e capitalizar em cima do pequeno filme que tornou-se, à época de seu lançamento, um fenômeno cultural e financeiro é mais um erro para a coleção.

Comecemos pela premissa ridícula: o irmão caçula de Heather Donahue (a documentarista responsável pelas filmagens achadas em 1999) crê que sua irmã ainda pode estar viva. Sim, você leu certo: um sujeito que parece não sofrer de nenhuma deficiência mental acredita que sua irmã ainda vive, sabe-se lá como, nos arredores da floresta em que desapareceu após 17 anos, e está convencido disso graças a um reflexo visto num espelho de uma filmagem que surge no You Tube.

Claro, essa é apenas a primeira das tentativas de atualizar a coisa toda independente de lógica: temos streaming, GPS, drones, câmeras acopladas em ouvidos de bateria eterna que filmam com uma qualidade impossível e registram sons com capacidade impecável até mesmo dentro de sapatos das pessoas ao redor. Tudo isso seria perdoável se o filme, ao menos, construísse algo digno com toda essa parafernália e tivesse qualquer personalidade própria. Não é o caso.

Apesar de algumas ideias acertadas como a confusão mental e temporal causada pelo fato de estarem perdidos ou até mesmo o loop que o filme cria para si mesmo com o tal vídeo exibido na sua abertura, temos aqui quase uma nova versão equivocada do longa original, mais interessado em replicar tensão do que construí-la de forma natural e com méritos próprios. Contando com recursos muito mais polpudos, Adam Wingard e cia. parecem saber o que estão fazendo, mas, na verdade, esquecem que apenas aumentar o volume não muda a música e ainda pode causar distorção. Mortes mais elaboradas parecem encobrir o fato de que, no original, não sabíamos o que acontecia com os envolvidos, e isso tinha muito mais impacto. O filme perde inúmeros pontos também na tentativa de criar sustos com patéticos e imbecis jump scares através de personagens quase literalmente pulando na frente da câmera ao menos uma dezena de vezes ao longo de sua curta duração, chegando ao ponto de tornar-se ridículo.

O filme falha até mesmo na própria tentativa de re-imaginar a proposta do Blair original, ao editá-lo com interferências digitais forçadas inseridas na pós-produção e blacks que só aumentam a artificialidade da coisa toda e o distancia de sua obra inspiradora; essa direta e sem cortes pausados para respirar ou criar divisões. A falta da bitola 16mm contrastada e totalmente horripilante também é sentida, mas isso é mais queixa pessoal do que defeito do filme.

A culpa disso recai inteiramente sobre Wingard – oriundo da geração responsável pela coletânea VHS e um de seus nomes mais fortes – sempre influenciado pelo filme de 1999, mas também repleto de vícios que fizeram seu caminho até Bruxa de Blair. Dono de uma carreira que vinha num crescendo admirável, esse que poderia ser um projeto de paixão erra em coisas básicas, desde o elenco de rostos semi-conhecidos (ainda que competente) até a reverência excessiva ao filme original, prejudicando qualquer surgimento de ideias que pudessem causar surpresas e errando também nas poucas novidades que traz. Ainda assim, é inegável o acerto de alguns dos minutos finais do filme, no qual a casa mal assombrada e dilapidada vista no filme primogênito ressurge de forma ainda mais opressiva.

É lamentável achar que algo como este Bruxa de Blair poderia fazer jus ao original apenas por atualizar-se tecnologicamente e seguir sua trilha quase passo a passo, previamente desnorteante e, agora, apenas previsível. Por mais respeito que tenha à fonte de inspiração – e isso é evidente ao analisarmos quem está por trás das câmeras – não há aqui qualquer vestígio do que tornou A Bruxa de Blair (o real de 1999) um clássico do gênero: o trunfo de, com muito pouco, conseguir construir tensão quase insuportável e terror psicológico genuíno. No lugar de um(a) vilã(o) opressor(a) deixado(a) apenas para a imaginação temos aqui um parasita de pé para os realizadores brincarem de gore e algo similar a um alien que faria mais sentido numa próxima continuação da série Cloverfield, comprovando que, às vezes, menos é muito mais.

Filme Café Society é Bom?

“A vida é uma comédia. Uma comédia escrita por um roteirista sádico”.

Talvez essa frase não apenas consiga resumir com competência a lógica envolvida pela narrativa de Café Society, mas talvez abrace como um todo a obra do diretor Woody Allen. Dono de um estilo bem particular e específico, o diretor retorna em 2016 com um vigor estético atualizado, cheio de maneirismos atípicos à sua decupagem usual, mas sem perder os questionamentos morais e existenciais obrigatórios em sua escrita.

Jesse Eisenberg (Batman v Superman) é Bobby, uma reencarnação da persona criada por Woody Allen nos anos 60, através de sua própria interpretação exageradamente tímida e neurótica. Aliás, se Owen Wilson havia sido amplamente elogiado em Meia Noite em Paris pelo seu mimetismo em cima dos trejeitos usados na juventude do seu diretor, Eisenberg aqui traz um frescor interessante ao aliar o seu próprio timing cômico, fortemente baseado na velocidade de suas falas, para recriar o homem contemporâneo de Allen.

Mergulhado em um mundo pós-crise de 29, onde o glamour do Cinema e suas estrelas representavam um grande contraponto com a realidade desiludida do cotidiano “civil”, Bobby, filho caçula de uma família judia, muda-se de Nova York para Los Angeles com o objetivo de trabalhar na produtora do seu tio Phil (Steve Carrel, de Foxcatcher). O comparativo entre as duas capitais é ilustrado visualmente pela temperatura de suas cores, e se um dourado artificial banha as mansões californianas, vemos uma Nova York dessaturada, crua, sempre pendendo para um marrom que escurece os ambientes internos e familiares. Traçando esse comparativo desde o início do longa, a terra da oportunidade vai sendo revelada pela sua fragilidade e hipocrisia, e seu dourado “Technicolor” perde a conotação positiva sugerida anteriormente. Já Nova York, com seus conflitos humanos e a honestidade das ruas, se prova ainda mais cinematográfica do que a própria Mecca da Sétima Arte.

O triângulo amoroso traçado entre Bobby, Phil e sua secretária Vonnie (Kristen Stewart), estabelece um conflito desinteressante e pouco inventivo, sendo apimentado apenas por pequenas pistas e recompensas inseridas para amarrar sua trama de forma eficiente. A utilização despretensiosa de pequenos elementos, expostos em diálogos de maneira orgânica e pouco chamativa, faz com que sua reutilização como forma de amarrar ou iniciar certos conflitos torne-se uma grande amostra da capacidade narrativa de Woody Allen como roteirista. Mesmo na ausência de temas e soluções inovadoras, ou até mesmo relevantes para sua filmografia, é extremamente interessante perceber como o autor não perde suas ferramentas clássicas que estimulam uma progressão satisfatória em suas tramas.

Como em grande parte de sua carreira, a utilização de narração (dessa vez, em áudio gravado pelo próprio), Allen gasta um grande tempo de sua introdução na apresentação de seus personagens, garantindo uma exposição dupla e redundante: cada cena inicial de seus personagens trazem consigo suas características biográficas proferidas pelo narrador e exemplificadas por uma cena curta bastante expositiva. Se esse recurso funciona com diretores como Martin Scorsese e Quentin Tarantino, é pela justaposição irônica entre diálogo e ação, enquanto em Woody, principalmente em Café Society, vemos apenas um exercício do seu próprio estilo sendo posto em prática. Salvo aqui como exceção, a utilização irônica da violência do mafioso Ben (Corey Stoll, de Homem-Formiga), que não só se destaca pela própria interpretação do seu ator, mas ganha cores ao se utilizar do velho paradoxo entre a violência do homem da máfia e o seu apreço e cuidado pela noção de família.

Existe uma dificuldade de promover o envolvimento do público com os dramas e relacionamentos de seus personagens, algo que não só é um reflexo da incapacidade de Kristen Stewart de trazer vida e intenções diversificadas para sua Vonnie, constantemente entediada em sua própria máscara dramática engessada, evitando o olhar direto de seu colega de cena a todo o tempo, mas do próprio distanciamento proposto pela narrativa. Após uma grande expectativa para o início do relacionamento entre Bobby e Vonnie, o filme se engaja em uma montagem em forma de clipe, onde a narração resume rapidamente para o espectador os sentimentos do casal em meio de interações genéricas de romantismo entre os dois; solução superficial para uma questão cerne levantada pelo longa.

Com uma frágil liga entre suas subtramas, “Café Society” propõe uma comédia de costumes que remonta seu estilo como dramaturgo no Teatro, com suas peças rápidas e diálogos que provocam a troca de poder entre seus interlocutores o tempo todo. A aquisição de Vittorio Storaro como diretor de fotografia trouxe um colorido e uma diversificação em seus movimentos de câmera que se destacam em sua filmografia tão rígida e repetitiva em termos técnicos. Porém, como bem disse o diretor brasileiro Júlio Bressane em uma de suas entrevistas, se referindo ao paradoxo entre a ascensão técnica e a queda da qualidade narrativa dos produtos cinematográficos: “Não adianta vestir um escafandro feito de ouro para mergulhar em uma banheira”.

Filme Deuses do Egito é Bom?

Deuses do Egito estava fadado ao fracasso desde que sua publicidade começou a poluir o universo. O suposto embranquecimento de seres mitológicos de descendência africana, os efeitos digitais claramente abaixo do orçamento necessário para realizar um filme desse porte e uma tendência ao kitsch já gritavam de forma óbvia a palavra “BOMBA”.

Como resumir sua trama? Começa com aquela narração genérica explicando que do Egito vem a origem da vida, que Deuses conviviam com humanos, Rá (Geoffrey Rush) é o pai fodão de Osiris (Bryan Brown) que era o rei bonzinho e, também, pai do folgado/herdeiro ao trono Hórus (Nikolaj Coster-Waldau, de Game of Thrones), mas que não conseguirá assumir seu posto porque seu tio general fodão Set (Gerard Butler, em modo 300) trairá geral. No meio desse bolo um humano trouxa (Brenton Thwaites) consegue se envolver em várias enrascadas e sua namoradinha termina morta, o que termina levando o coitado a precisar da ajuda do caído Hórus para retorná-la ao mundo dos vivos. E… acho que é isso, mas é o suficiente para saber que uma trama tão convoluta, bagunçada e repleta de tantos elementos arriscados dificilmente renderá coisa boa sendo feita por um estúdio mais preocupado com ingressos arrecadados em 3D e cartazes estampados por galãs de talento questionável.

O que nos remete ao diretor do filme, ironicamente nascido em Cairo. Alex Proyas já provou ter muito talento com a obra-prima Cidade das Sombras e que mesmo com materiais bizarros na mão, a exemplo de Presságio, o resultado final pode ser um filme aceitável. Por outro lado, Eu, Robô consegue resumir de forma mais digna o que deu errado com Deuses do Egito. Ainda que, aqui, o problema seja diferente, passando longe de ter uma estrela do porte de Will Smith, é quase impossível não enxergar todos os caminhos que o filme pega como uma das tentativas mais preguiçosas e caça-níqueis de capitalizar em cima de uma criação original para subvertê-la e transformá-la em algo não apenas errado, mas tão questionável sob qualquer ponto de vista que analise o atual gosto do público-médio e suas preferências ao ponto de desejar mal a todos que dão sinal verde para algo tão infame ainda ser realizado. Pense Fúria de Titãs. Pense Príncipe da Pérsia. Pense John Carter. Pense Imortais. Pense… apenas pense, pois os estúdios, pelo visto, desistiram disso faz um bom tempo.

Ainda assim, Proyas assume o desafio de cabeça erguida e com convicção no ridículo do que foi pago para realizar, deixando claro que o carnaval vai do começo ao fim sem o menor temor em pavonear, da sua esdrúxula direção de arte aos ridículos e inaceitavelmente ruins efeitos digitais que criam cidades e pirâmides mais irreais que qualquer animação da Dreamworks e metamorfoses de deuses em criaturas douradas que merecem causar risada extrema de tão bizarras. É quase impossível contar os diversos momentos em que estamos apenas testemunhando gráficos de videogame desfilando na tela, e em determinada cena, numa cachoeira, há uma rajada de água tão fake que só faltou um letreiro na tela pedindo desculpas. Derrapa também nas cenas de ação que variam entre mal filmadas e esquecíveis, além da montagem ser outro ponto preocupante, apressada para fazer as trolhas de tramas e subtramas andarem o mais rápido possível. Há aqui e ali algumas pitadas de cérebro por trás do crânio deformado desse filme, a exemplo das brincadeiras com aparatos voadores e até mesmo uma tendência a ópera espacial, mas nada que salve o filme de seus pecados.

Prejudicado por um roteiro que não tem a menor noção de como salvar os humanos da inanidade e transformar os deuses em algo além de caricaturas dignas de escárnio, as tentativas de comédia são sofríveis, as reviravoltas são seguidas numa cartilha de previsibilidades irritantes, todos os personagens parecem que foram jogados e grudados na mesma história a cuspe e não há um membro do elenco digno o suficiente de elevar o material em questão.

Gerard Butler talvez seja o maior nome entre os envolvidos, e é triste pensar isso, levando em consideração sua plena decadência desde uma interpretação idêntica vista no seu auge em 300 há mais de 10 anos passados. Nikolaj “of Thrones” é mais uma dessas criaturas que Hollywood quer vender a todo custo como novo herói caucasiano bonitão de ação, mas que não convence e sabemos que é daqui pr’ali a começar a fazer filmes direto para vídeo. Infelizmente, a maior decepção vem do único ator afro-descendente do elenco: Chadwick Boseman é responsável por uma interpretação tão patética e artificial como Thoth que é praticamente impossível não observá-lo em tela sem querer um reembolso do ingresso. Sua ideia de como dar vida a um ser puramente lógico e pensante resume-se a caras, bocas e entrega de falas de forma automática. Daria menos raiva se soubéssemos que isso vem de um ator de talentos mais limitados, o que não é o caso.

Por fim, vale ressaltar que toda a polêmica envolvendo a questão racial do filme é justificada, mas estamos lidando com uma mitologia que pré-data o cristianismo e a re-imaginação desse período ao lidar com seres mitológicos não é algo tão fora do comum, ainda que seja inaceitável em pleno séc XXI o fato de estúdios aceitarem financiar apenas filmes protagonizados por caucasianos. Ei, ao menos não tem branco pintadinho de marrom, né, Ridley Scott? E vale lembrar: que diabos de mundo é esse em que a doutrinação ao Jesus branquelo é totalmente normal? Claro, é a lógica hollywoodiana furada de bombas por todo lado. Prossigamos, mas com fé em Deuses do Egito, para que possamos reduzir esse tipo de tragédia involuntária do cinema nos anos que estão por vir e que Alex Proyas consiga retomar os rumos de sua carreira.

Filme Jurassic World – Reino Ameaçado é Bom?

Acho que já usei essa metáfora antes, mas sabe quando tem um mágico na festinha e já conhece  todos os truques dele, mesmo não sabendo COMO ele vai colocar a moeda atrás da sua orelha, mas ele VAI colocar? Esse é bem o caso, e até a repetição da figura de linguagem configura o visto em Jurassic World – Reino Ameaçado.

O segundo filme da nova trilogia chega repetindo as mesmas estratégias do anterior (Jurassic World de 2015) e do seu irmão de colocação (O Mundo Perdido, 1997) e tá tudo lá: os dinossauros, as tramas, as reviravoltas. Tudo mais do mesmo.

E esse é o grande problema: mesmo com as regras estabelecidas nos quatro anteriores, o filme parece preocupar-se em garantir A cena de dinossauro, mas todas bem semelhantes com o que já vimos, ocasionando assim uma pálida e previsível visão, onde se tem uma lua no céu bem enquadrada haverá um “(coloque o nome do seu dino preferido) sauro” berrando para o alto. Tanto que o personagem de Justice Smith (da finada série da Netflix, The Get Down) representa o espectador quando repetidamente pergunta pelo momento em que o T-Rex vai aparecer. E é claro que aparece, num momento em que chamar a atenção é muito mais importante que seu instinto de sobrevivência.

Nos personagens, Chris Pratt (Vingadores: Guerra Infinita) e Bryce Dallas Howard (Black Mirror) estão confortáveis nos seus papéis; aliás o desempenho de Pratt – que não é grandioso, mas convincente – é o que complica a vida de Smith: enquanto o protagonista de Guardiões da Galáxia Vol. 2 tem total controle do timming cômico, Smith sofre do mesmo problema de Kat Dennings com sua Darcy em Thor (2011), mas com o diferencial de não se tornar irritante, apenas insosso.

A estrutura do filme baseia-se em dois momentos, ambos funcionando tranquilamente como causa e consequência; embora a segunda metade seja um pouco arrastada, mas nada que afete algo que já vem sem grandes novidades.

Existem elementos no filme de J.A. Bayona  (O Impossível, O Orfanato, Sete Minutos depois da Meia-Noite) que são pertinentes, como a discussão que tenta levantar através do prelúdio e posfácio do personagem de Jeff Goldblum sobre o uso da ciência pelos seres humanos e passível de um paralelo com a energia nuclear – que o próprio nos rouba desse exercício no seu texto.

Enquanto outra franquia retornada, Star Wars, mesmo com um sub-pastiche ainda coloca elementos interessantes na sua jornada, Jurassic requenta seus elementos visuais sem grande impacto – principalmente no 3D. O mais impactante no filme é o seu desfecho, acarretando em um massivo – e interessante – descontrole cujo modo que os roteiristas resolverão no próximo filme será deveras intrigante.

Filme Inferno é Bom?

Com um leque enorme de filmes adaptados de livros e quadrinhos, é importante para a crítica de cinema nunca se perder em comparações fúteis entre a mesma história contada de formas diferentes. No caso de Inferno, terceiro filme adaptado da série literária de Dan Brown sobre as aventuras do simbologia Robert Langdon, a regra se mantém, e a leitura do livro serve apenas como um guia que desvela até certo ponto a lógica de um roteiro que se esforça em apresentar um meio termo dos dois pólos opostos em que se encontram seus longas antecessores.

Filme Inferno é Bom?

Se em O Código Da Vinci tanto público quanto crítica observaram uma falta de ritmo entre suas longas e maçantes cenas de exposição didática, Anjos e Demônios peca pela dificuldade de ser prazeroso ao meio de uma energia artificialmente agitada, onde a ação constante confere ao longa uma estrutura desastrosamente problemática. Já em Inferno, o diretor Ron Howard introduz sua nova trama com a aparente sensação de controle, dando o tempo necessário para que seus códigos e conflitos sejam estabelecidos em cima de um ritmo de montagem interessante para a franquia até então. Os flashes delirantes que perpassam pelo subjetivo de um Langdon hospitalizado, inseridos burocraticamente em seu primeiro ato, revelam uma tentativa de quebrar um paradigma estético assumido anteriormente na franquia.

Assim como visto em diretores como Christopher Nolan e David Fincher, Ron Howard se esforça em uma tentativa frustrada de conseguir aliar um didatismo narrativo com um toque transcendental nunca alcançado. Em “Uma Mente Brilhante” já era possível notar como sua montagem confusa e inserções gráficas luminosas (algo repetido em O Código Da Vinci) eram sintomas de uma falta de convicção para expor em tela algo substancialmente concreto. Em “Inferno”, não apenas Howard comprova sua falta de aptidão para deslumbrar o público com sua pretensão, mas o próprio roteiro de David Koepp (responsável pelo constrangedor Indiana Jones e a Caveira de Cristal) auxilia o diretor a se enforcar na própria corda.

Povoado de personagens de péssima caracterização e personalidade, o roteiro de Inferno é refém da própria obra literária da qual criou vida. O didatismo da narração de Dan Brown se converte em tela ao corpo de péssimos diálogos expositivos, onde as curiosidades artísticas e históricas que envolvem a cidade de Florença se tornam uma pedra no caminho da naturalidade de suas conversas. A noção de perigo proposta por uma introdução instigante se esvai na casualidade com que a narrativa trata o tema com o passar de sua minutagem, transformando uma situação limítrofe em um conflito pueril e perigosamente maniqueísta pela covardia do texto de não apostar nas nuances de suas questões éticas e sociais.

Com uma das trilhas mais criativas de Hans Zimmer em seus últimos trabalhos, investindo em tons metálicos oitentistas que alimentam a frágil estrutura de thriller proposta pela direção, Inferno fracassa amargamente em sua pretensão de criar um meio termo entre seus dois filmes antecessores. A falta de humanidade de seus personagens e a superficialidade de seu tom torna ainda mais constrangedora a tentativa de criar um interesse romântico totalmente dispensável para o progresso do arco do professor Langdon, se tornando uma mera ferramenta artificial para tentar dar tridimensionalidade à sua figura sisuda e pragmática. Longe de ser uma experiência infernal de se assistir, basta afirmar que seus longos e desnecessários 121 minutos podem transmitir uma sensação de purgatório, onde toda sua previsibilidade e desconexão com sua própria realidade apenas incentiva um ligeiro desejo para que tudo acabe logo de uma vez.

Oito Mulheres e um Segredo é bom?

Ao ressoar a informação que existiria uma versão formada só por mulheres de 11 Homens e um Segredo, remake do filme de 1960 protagonizado por Frank Sinatra, infelizmente já era esperada a chuva de besteiras machistas acerca do projeto.

O mesmo ouvido no projeto de uma versão de Os Mercenários, com elenco majoritariamente feminino.

O mesmo ouvido na versão de Os Caça-Fantasmas, com elenco majoritariamente feminino.

Não obstante, Oito Mulheres e um Segredo, filme dirigido por Gary Ross e capitaneado por Debbie (Sandra Bullock), irmã de um falecido Danny Ocean (George Clooney, líder das versões anteriores), opta pela leveza ao invés de um tom panfletário; contudo distribui elegantes tapas. Com luvas. Exemplo disso é uma das falas em que Debbie e sua comparsa Lou (Cate Blanchett de Thor Ragnarok) elegem as membros da equipe, e a justificativa da personagem de Bullock em não aceitar homens é que “eles se fazem notar, elas são ignoradas“. Ou melhor, subvertendo com “existe uma menina de oito anos em algum quarto que sempre quis ser uma criminosa“.

Ainda com o foco feminino, o filme abraça a todos; começando pela equipe: todas tem seu momento de alívio cômico, com Bullock muitas vezes utilizando os mesmos cacoetes de As Bem-Armadas, de forma moderada. As demais funcionam como apresentação de diversos arquétipos femininos, e é divertido o modo que elas representam suas habilidades de formas mais sutis – e interessantes – do que um Heist Movie convencional: Rihanna sendo Rihanna – e isso é bom; a novata Awnkwafina surpreendendo; Sarah Palson parodiando a vida dupla (ou tripla, quádrupla) da mãe; Mindy Kaling pondo a perspectiva da negação das tradições; Helena Bonham Carter confortável em mais uma personagem estranha, porém uma das mais normais de sua carreira; e Anne Hathaway com uma desconcertante ironia).

Os homens apresentados muitas vezes não são idiotas, mas são colocados como pela situação de serem roubados debaixo dos seus narizes. E o filme cuida para que o protagonismo não seja roubado em nenhum momento. Isso é bem colocado no segundo roubo, onde o coadjuvante masculino é apresentado de forma instrumental. A trilha também cola na aposta pela predominância de vozes femininas com certo toque nostálgico de anos 60 (rememorando o filme de origem), como Nancy Sinatra e Amy Winehouse. A única voz masculina é a de Charles Aznavour, condizente com a premissa.

A parceria entre Bullock e Blanchett sofre pela presença que a segunda tem em tela, aliada ao figurino andrógeno escolhido por Sarah Edwards, que bebe muito de um dos Fashion Designers de David Bowie, Freddie Buretti – observe o terno azul como assemelha-se ao mesmo usado pelo cantor no clipe de Life On Mars e mesmo no Met Gala, ela opta por um Jumpsuit.

Assim como em Star Wars O Despertar da Força, onde o protagonista só é descoberto no final (Rey tendo ciência da Força), Oito Mulheres acoberta o antagonista até o terceiro ato. Aliás, os “atos” são outra quebra na estrutura: sem os Pontos de Trama (revezes no roteiro que fazem o protagonista mudar de direção) facilmente reconhecíveis, o filme desliza para o que realmente interessa de forma fluida. Obviamente, o roteiro conta com umas forçadas tecnológicas para que a trama avance, porém nada tão grave.

O problema é que o plano sai perfeito. Demais. Não fica nenhuma farpa solta para as vigaristas, logo a sensação que o filme se estende por tempo demais começa a dominar, o que faz o terceiro ato soar como um “encaixe” para tentar emitir uma sensação de perigo, o que não funciona muito (lembrando o último Senhor dos Anéis após a queda de Sauron). Para ser mais exato, o único momento que que há algo mais tenso é no escaneamento do colar.

Elegante, simpático, leve e divertidinho, Oito Mulheres e um Segredo funciona como um oásis de entretenimento, mostrando o que todo mundo já deveria saber – e que dá vergonha em 2018 ainda ter que escrever isso: que gênero não desqualifica um filme. Oui.

Trilogia Blade vale a pena?

Existe um RPG de mesa chamado Vampiro: A Máscara. De todos os tipos de vampiros já desenvolvidos pra uso comercial, os dos anos 90 e todos que beberam da fonte desse RPG incrível me agradam mais. Vampiros punks, organizados em diferentes clãs e, acima de tudo, orgiásticos e poderosos. Blade é um dos mais legais do gênero, mas foi piorando a cada edição…
No Filme Com Leite Condensado de hoje, vou analisar o que gosto e o que não gosto nos três filmes da saga do caçador de vampiros que é o único capaz de andar sob a luz do dia, conhecido e temido pelo título Daywalker (no quadrinho, outros daywalkers aparecem). O filme inspira vibe anárquica, que a gente é enganado o tempo todo por um sistema que visa esconder toda a sujeira debaixo do tapete. 

BLADE, O CAÇADOR DE VAMPIROS (1998)
O primeiro longa da trilogia é, sem dúvidas, o melhor. Fotografia escura, boates com chuva de sangue para vampiros clubbers, música eletrônica dos anos 90 e luta de espadas. Blade é meio humano e meio vampiro, tendo assim todas as capacidades sobrenaturais dos vamps, como superforça, regeneração e agilidade incríveis. Além disso, não possui as fraquezas da noite, podendo andar livremente de dia. Seu único problema é: se nega a beber sangue.

Trilogia Blade

Pra isso, seu amigo e mentor Whistler, que o treinou para ser um caçador de vampiros, conseguiu alguém para desenvolver o soro que substitui o uso de sangue, mas Blade precisa tomar com cada vez mais frequência, principalmente quando se envolve numa briga com o vampiro rebelde que quer trazer o deus dos noturnos de volta dos “mortos”. Por um acaso, esse é o vampiro que matou a mãe de Blade, vampiro por qual o caçador sai todas as noites, a razão de querer vingança.
Os efeitos são característicos da época, a história não é da maior genialidade, mas gosto muito da caracterização do Wesley Snipes pro herói e do trabalho visual, do figurino gótico-moderno e do design dos sets numa cidade fria e perigosa ao anoitecer. Recomendo.

BLADE II – CAÇADOR DE VAMPIROS (2002)
Aqui a história envolve os relacionamentos de pais e filhos (mesmo que de forma bizarra), manipulação genética e vampiros que comem outros vampiros como resultado disso. Os “reapers” formam uma nova raça de bebedores de sangue que não só se reproduzem muito rápido como possuem uma mordida fatal também para vampiros. Causam paralisia, são extremamente difíceis de matar e sua resistência à porrada é absurda, além da extrema velocidade. 

Num ato de desespero, os vampiros pedem ajuda de Blade para exterminar a nova ameaça, que depois que se alimentar de vampiros, vai se alimentar de todos os humanos, criaturas que o caçador jurou proteger enquanto vivo. Assim ele se vê trabalhando com um time de vamps que foi treinado para aniquilá-lo (que irônico). As frases de efeito são muito divertidas e a caracterização de cada vampiro do time é bem única.
Quando mais novo, aluguei toda a trilogia. Esse era o único filme que eu tinha medo, porque a boca dos reapers é igual à do aliengínena do filme Predador. A história perde um pouco de força, mesmo que o visual continue tão e até mais impecável que no primeiro filme — e os efeitos melhoraram muito!

BLADE TRINITY (2004)
O-pior-de-todos-os-filmes. Sério, é absurdo como conseguiram cagar com a trilogia com um filme só. Blade agora é procurado pela polícia, tem sua base de operações destruída e acaba indo pra cadeia (controlada por acólitos de vampiros, chamados no filme de “familiares”). Lá, é resgatado por um cara (Ryan Reynolds quando era feio, mas ainda gostoso) e uma garota (Jessica Biel, bonita mas sem sal), exímios combatentes das trevas, mas ainda muito jovens para serem respeitados. E humanos.

Ela é a filha afastada de Whistler e trabalha nesse grupo de caçadores que usam altíssima tecnologia (?!) pra acabar com os monstros. Só que o problema agora é maior: vampiros trouxeram do túmulo o primeiro grande chupa-chupa: Drácula, chamado de Drake pra amenizar a patetice. O filme já tava ruim com a maneira de terem incluído o grupo novo de caçadores, com as história meia-boca do Drácula então… 
Da trilogia, esse é o único que não vejo mais de uma vez, passo batido. Mas em geral, a série Blade é um dos poucos filmes de vampiros que se mantém fiéis à organização política e personalidades diferenciadas de vampiros em diferentes locais, diferentes épocas. Me sinto muito inspirado pelo primeiro filme, principalmente quando preciso brincar de ilustrar me baseando na arte do jogo Vampiro: A Máscara.

Se gosta dos filhos da noite, vai gostar pelo menos do primeiro filme. O segundo vale ter na prateleira. O terceiro nunca deveria ter saído do papel. Inclusive, tentaram fazer uma série e o spin-off dela virou a nova geração de filmes (do Blade careca mesmo). Nunca vi, mas poucos comentários são elogios. 
Se assistir, comenta?

O Homem de Aço (2013) é bom?

sperei minha vida inteira por um filme assim. Mesmo depois de ter achado que Os Vingadores acabariam com qualquer esperança cinematográfica para meus heróis favoritos, Zack Snyder (♥), Christopher Nolan (♥) e David S. Goyer (sem coração) reviveram um ícone. “Super” nunca foi um título tão bem colocado, mas eu escolheria o prefixo adjetivado “supremo”. Não há nada igual ao que vi aqui.
Antes de mais nada, retire o preconceito dos ombros. Quando falo do Superman (e minha imbecil preferência pela DC Comics sobre a Marvel), todo mundo para pra dizer que não tem graça, que não há razão pra contar a história de um cara que é, basicamente, indestrutível. Essa é a maior dificuldade na hora de tentar adaptar para o cinema, principalmente hoje que a demanda é que super-heróis — por mais super que sejam — se tornem humano, que suas histórias possam ser acompanhadas de um “tá, isso seria possível no mundo de hoje”.

Por isso, trazer um alienígena com cueca por cima da roupa e que se disfarça apenas colocando um par de óculos sempre deu zebra. Pode falar que tô cuspindo no prato dos filmes antigos (excluindo o péssimo MESMO Superman, O Retorno), mas não há razões para comparar o passado com o presente. O público clama por solidez, não só no enredo, mas em como todas as fantasias que os quadrinhos nos trazem serão representados visualmente, em movimento.
A história em OHomem de Aço é contada primeiro em Krypton, com uma estilística única (com cara de Snyder) e um roteiro muito bem resumido e costurado pra caber em, sei lá, 10 minutos, um monte de história, razões e referências. Krypton se torna uma Matrix softcore, onde cada cidadão nasce “artificialmente”. Seu material genético é alterado para que as pessoas nasçam com predefinições sociais muito claras, como o político, o guerreiro, o líder e assim em diante. As escolhas parecem não existir.

É quando Jor-El (renomadíssimo cientista) e sua esposa Lara Lor-Van decidem que seu filho nascerá de parto natural, não numa encubadora. Que seu corpo será imaculado e suas escolhas possíveis. A merda é que pelo fato de terem gasto tudo do meio-ambiente, a galera de Krypton teve a estúpida ideia de pegar matéria-prima do núcleo do planeta, o que colocou uma data de expiração pra vida de todos. Num último suspiro, Jor-El e Lara enviam Kal-El (vulgo Clark Kent) pra Terra, quando ao mesmo tempo Zod, o general fodão, resolve tomar providências pra matar todo o conselho de Krypton e dar um “golpe militar”.
Daí em diante a gente já conhece a história: alien criado por fazendeiros descobre seus poderes com o passar dos anos e desenvolve um código moral mais forte do que ele. A graça é como isso é transportado pro cinema com esperteza de fazer chorar. Você nunca viu a história do Superman dessa maneira. Várias mudanças aconteceram, mas nada que destruísse o que conhecemos. Na verdade, a versão desse filme me parece até mais sensata do que dos próprios quadrinhos, mesmo após o “reinício” dos heróis da DC Comics.

Kal-El acaba se tornando um representante político. Não dos Estados Unidos da América, não de Krypton. Ele é o símbolo da sociedade utópica, o líder que vai mudar a cabeça dos seres humanos para que não aconteça conosco o que aconteceu em seu planeta natal, um alienígena e não super-herói. A desculpa que faz com que Kal-El se torne um herói de coração puro também é construída com detalhes importantes, como o sacrifício, o amor e o respeito, que não importa qual o tamanho da sua força, sendo seguro de si e pensador de um bem maior, não há por que se aproveitar da fraqueza dos outros.
Esse alien é um imigrante buscando aceitação num mundo hostil. Piora quando Zod aparece na Terra (sim, porque o Conselho de Krypton é burro e acabou “salvando” Zod da destruição) e exige a cabeça de Clark num espeto. Até a galera entender quem tá do lado de quem, rola muita água. Literalmente. Mesmo que o roteiro consiga colocar em duas horas e vinte todo o legado que deu origem ao Homem de Aço, dá a sensação de que correram um pouquinho, o que é quase completamente resolvido com a narrativa de vai e vem no tempo pra explicar cada passo de Clark.

Seu relacionamento com Lois Lane também é rápido, mas devido às circunstâncias em quais eles se envolvem, dá pra entender. Ele, homem solitário e frágil, encontra nela um refúgio. Até brincam incrivelmente bem com o conceito de identidade secreta, é tudo mais real. As referências aos filmes como The Thing e o próprio Matrix são claríssimas. A fotografia é de um trabalho espetacular, falando nisso. As cenas mostram a imensidão dos poderes do Superman em tomadas amplas, minimalistas e muito bem iluminadas, coisa que só Zack Snyder (♥) sabe fazer (assista Sucker Punch e reveja O Homem de Aço pra comparar).
Morri de medo, é claro. Superman e Batman são os dois super-heróis que cresceram comigo. Clark é o alienígena que eu fui (e sou) desde a época do colégio. Batman é minha solidão, meu lado “faça você mesmo”. Aprendi a ler com meus quadrinhos e também foi por causa deles que peguei um lápis e cursei design gráfico na faculdade. Tive medo de O Homem de Aço ser um lixo, mas não. Mesmo sendo um blockbuster (filme pra se tornar popular e levantar muito dinheiro), é cheio de significados, de verdades próprias que o sustentam.

Mesmo que escreva e escreva, não vou conseguir traduzir pra você a experiência de colocar os óculos 3D numa sala de cinema IMAX e chegar a sentir o cheiro de poeira dos destroços ou o impacto avassalador das cenas de luta onde a gravidade não tem vez (Neo e Smith de Matrix invejando em 3, 2, 1…). Batalhas dignas de Dragon Ball Z, roteiro à lá Batman: O Cavaleiro das Trevas e todo o visual descolado no estilo Zack Snyder de ser. O Homem de Aço é meu orgulho. É a razão de hoje eu estar procurando em lojas online os blu-rays dos heróis da DC que vou colecionar na estante.
E amanhã tô no cinema de novo. Contra todos os críticos chatos e saudosistas, aceito a nova geração do herói. Henry Cavill é puro Clark Kent, personagem de difícil interpretação, pois corre o risco de ficar chato, de ficar bobão e incômodo. Não tem discussão comigo: é o melhor filme do herói até hoje, contando todos os aspectos (inclusive as cenas de luta que só servem pra encher os olhos, porque cinema é  experiência visual também, não precisa falar de Platão a cada linha).

Agora e Sempre (1995) é bom?

Sabe aquelas aventuras de verão que você sempre quis viver com seus melhores amigos no melhor estilo Goonies, só que menos viajado? Sessões espíritas no cemitério, correr de bicicleta na chuva pra fugir d’um maluco, ter um lugar secreto ou nadar num lago deserto de qualquer lugar? Desejos que não desaparecem nem com o passar dos anos? Now and Then é sobre isso.
Porque a gente cresce e muda. Quando somos pequenos, promessas são fáceis de fazer e sempre tão fáceis de cumprir… temos menos medo de compromissos, menos medo do amanhã, daquilo que ainda não existe. Nos tornamos adultos, pegamos uma calculadora e tentamos planejar cada segundo do que ainda nem aconteceu. Calamos a intuição e, pior, nosso coração. 

Quatro amigas fizeram um pacto quando mais novas, quando moravam no mesmo bairro, de sempre poderem contar umas com as outras quando as coisas ficassem feias. Elas crescem, mudam de cidades, suas profissões a levam por novos caminhos e seus passados até as privam de retomar caminhos que já percorreram. Quando uma delas está a ponto de ter bebê, uma reunião de emergência é acionada, mais de duas décadas depois. 
Juntas naquele mesmo bairro que as apresentou, formou e testou seus laços, relembram da infância e suas melhores jornadas, com direito a suposta comunicação com o espírito de um menino cuja morte é um mistério, um velho insano que caminha no cemitério apenas à noite, o veterano de guerra que lhes oferece o primeiro cigarro ou as brigas entre meninos e meninas, como gangues, que fulmina nas primeiras descobertas românticas.

Agora e Sempre é de uma sensibilidade tão graciosa quando fala de amizades! Sabe aquela coisa de sentir saudade de algo que você nem sabe se realmente viveu? Lateja, faz sorrir, faz querer chorar, tudo ao mesmo tempo. Cadê nossos amigos do colégio? Cadê nossas promessas de eternidade? Não dissemos que seríamos diferentes de nossos pais, que quebraríamos as regras do tempo e viveríamos apoiados uns nos outros para sempre? 
Crescer te torna cético. Cético da bondade e inocência dentro dos outros e da gente. Damos um passo de cada vez com cuidado pra não derrubar a faca que trazemos escondida nas costas porque estamos esperando que qualquer pessoa nos ataque, até quem não esperamos. A gente prefere acreditar na frieza da “realidade” porque é mais fácil viver assim, se acostumar.

É mais fácil mesmo? Não seria melhor se pudéssemos confiar de novo, amar de novo? Se pudéssemos rir das mancadas, se pudéssemos nos levar menos a sério? Claro que as responsabilidades sempre virão, nunca canso de repetir, pois até mesmo as meninas no filme possuem as suas, tanto umas com as outras quanto com seus pais, seus irmãos, seus vizinhos e desconhecidos. 
E idade realmente define sua maturidade? Será que nossos pais serão sempre a voz da razão? Será que eles sabem de tudo e a gente não sabe de nada? Bem-vindo ao Agora e Sempre. Dê as boas vindas a um filme obrigatório para todo Discípulo de Peter Pan!
TRAILER SEM LEGENDA (INFELIZMENTE):

True Blood é bom?

A sexta temporada da série de vampiros mais legal e cheia de nudez do mundo vai estrear tanto no Brasil quanto nos EUA nesse domingo, dia 16. Se não conhece — ou ignora por achar que é igual a Crepúsculo ou The Vampire Diaries —, vou dar uma pincelada no porquê de eu amar a quantidade absurda de sangue e luxúria na TV. 
Imagine que os japoneses tenham inventado o Tru:Blood, sangue sintético. Imagine que nessa oportunidade, numa inversão social, histórica e política, uma nova espécia resolva se pronunciar publicamente. Poderiam ser alienígenas a causar tamanho pânico, mas por que aliens se pronunciariam por causa da invenção de sangue sintético? Não, não são aliens. São vampiros. Vampiros vêm a público pedir direitos iguais, de respeito e parceria, para conviver com humanos agora que não precisam se alimentar deles (necessariamente).

Vampiros mais rebeldes se recusam a beber de garrafas. Humanos conservadores eliminam até vampiros inocentes, formando grupos de ódio como vemos contra etnias. O negócio do momento é o sangue de vampiros, que funciona como uma droga estimulante na cama e no dia-a-dia, mas causa dependência absurda (e sai caro porque não é fácil conseguir sangue de vampiro). A prostituição alcança novos níveis, não mais por dinheiro, mas por sangue: eles bebem o seu, você bebe o deles. E nisso tudo, uma garçonete tropeça no pior pesadelo do homem.
A cidade é Bon Temps, sem graça, sem sal. Até o vampiro Bill aparecer e despertar o interesse de Sookie Stackhouse (Anna Paquin, a Vampira dos X-Men, que irônico). O negócio já começa bizarro porque Sookie consegue ler a mente das pessoas. Como Bill tá mortinho da silva (porque Bill e Silva são nomes que combinam), ela fica instigada e acaba salvando a não-vida dele. A partir daí, sangue e sexo.

Parece bobão, eu sei, mas é a única série que conseguiu retratar bem até a 5ª temporada a “real” natureza dos vampiros, criaturas imortais, dobradas ao abuso da sexualidade (tanto com homens quanto com mulheres, já que os conceitos sociais morreram com eles durante os séculos) pra matar o tédio, buscando algo novo pra distrair até o próximo século. Principalmente sangue. E mais sexo. Sexo com sangue.
Bill se apaixona por Sookie e ela por ele. Depois, Eric se apaixona por Sookie e ela por ele. Coisa de Edward e Bella? Não, meu bem. A série não é pra crianças. Aqui a gente tá falando de sadomasoquismo e dominação a níveis sobrenaturais, claro. Sookie tem cheiro inigualável (que é explicado mais pra frente) e todo mundo quer um pedaço e isso dá briga, com direito a explosão de tripas, gosma e orgasmos.
E por se tornar um ponto de forte presença mística, muitas criaturas sobrenaturais resolvem passear por lá: lobisomens, avatares de deuses da orgia e vinho, bruxas, metamorfos, fadas, fantasmas, panteras, necromantes… enfim, uma porrada de coisa. Mesmo numa confusão que poderia surgir de roteiros ruins e afobados, tudo consegue ser claro nos 12 episódios por temporada e sempre, sempre, com humor extremamente negro, começando pelo sotaque sulista do áudio original.

Então esqueça a melação. Esqueça o amor platônico. Esqueça o tabu onde homem só beija mulher e vampiros que têm filhos. Dê um oi para o banho de sangue sem motivo, para a heresia, para anarquia, para relações sexuais baseadas em mordidas sobre lençóis de vermelho intenso e decoração clássica. Se você jogou Vampiro: A Máscara, vai reparar que a hierarquia dos vampiros é bem inspirada de lá, o que torna a rede de acontecimentos mais complexa e “possível”. 
O trailer da 1ª temporada aí embaixo foi o único que achei legendado em português, então a imagem nem tá lá grande coisa, mas dá pra ter noção. 

O trailer da 6ª temporada é esse, também legendado em português:

Se puder, assista na qualidade de Blu-ray (720p ou 1080p). Você não vai querer perder detalhe algum, anota o que tô falando. E já tá na agenda um post na coluna Festa em Casa para uma social True Blood!

DICA DO SEM H: brincar de beber o sangue dos outros é caô, então pense duas vezes antes de matar o coleguinha ou bichinho pra fazer isso, tá? Primeiro que você vai estar cometendo assassinato. Segundo que pode pegar 12376123 doenças mortais. Terceiro porque seu estômago não foi fabricado pra processar grandes quantidades de sangue na digestão, o que poderá ocasionar enormes dores estomacais, diarreia, inchaços (inclusive internos) e refluxos (vômito) por dias! Dias! Também adoraria brincar de vampiro com osgatin da festa, mas seria meio estúpido, né não?